Pesquisas abordam SST em diferentes ambientes

São Paulo/SP – O Painel 1, do terceiro dia da XI Semana da Pesquisa da Fundacentro, em 19 de outubro, foi marcado pela apresentação de dissertações e teses, que trouxeram resultados de pesquisas realizadas em diferentes ambientes de trabalho. Os temas abordaram desde a exposição ocupacional em salinas à implementação do PCMAT (Programa de Condições e Meio Ambiente de Trabalho na Indústria da Construção).

No primeiro bloco, foram apresentados os resultados de três dissertações de mestrado defendidas no Programa de Pós-Graduação “Trabalho, Saúde e Ambiente” da Fundacentro, que abordaram a interface entre disfunções temporomandibulares e a organização do trabalho em teleoperação; a prova pericial na Justiça do Trabalho no caso das doenças associadas ao asbesto; e a exposição ocupacional à poeira de sal marinho no processo de beneficiamento em salinas no Rio Grande do Norte.

Já o tecnologista da Fundacentro/MG e engenheiro, Airton Tavares de Almeida Junior, apresentou sua pesquisa de doutorado em Engenharia de Materiais, defendida em 2014 na Universidade Federal de Ouro Preto – UFOP, sobre “caracterização de argamassas de barita como blindagens contra a radiação e determinação experimental dos coeficientes de atenuação desses materiais”.

O segundo bloco contou com a apresentação de quatro dissertações de mestrado realizadas na Fundacentro: “Risco de exposição à sobrecarga térmica para trabalhadores da cultura de cana-de-açúcar no estado de São Paulo”; “Implementação do PCMAT no processo de construção de alvenaria estrutural em obras de edificações residenciais de baixa renda na região metropolitana de São Paulo”; “Estudo de caso: análise da eficácia de um sistema de ventilação local exaustora utilizado para controle da sílica em uma indústria de borracha do Estado de São Paulo”; e “Inspeção do trabalho e redução de agravos à saúde: o caso da indústria mineral do Quadrilátero Ferrífero em Minas Gerais”.

Também houve a exposição sobre a tese de doutorado em Engenharia Mecânica “Contribuição à análise de sensibilidade do ruído de aeronaves de carga utilizando simulação computacional e sistemas de informação geográfica”. O trabalho foi defendido em 2013 na Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ pelo tecnologista da Fundacentro/RJ, o engenheiro Flávio Maldonado Bentes.

As pesquisas exploraram diferentes áreas do saber para refletir sobre aspectos da Segurança e Saúde no Trabalho – SST. “Precisamos ampliar os nossos horizontes. A questão interdisciplinar é importante para a melhora dos ambientes de trabalho, para o reconhecimento dos acidentes e adoecimentos”, aponta a coordenadora do primeiro bloco do Painel 1, Ana Maria Tibiriçá Bon, tecnologista da Fundacentro e doutora em Saúde Pública pela Universidade de São Paulo – USP. O segundo bloco foi coordenado por Irlon de Ângelo da Cunha, doutor em Engenharia Mineral pela USP e tecnologista da Fundacentro.

Disfunções temporomandibulares
O cirurgião dentista, João Rodolfo Hopp, defendeu o seu mestrado na Fundacentro em 2015. Em sua pesquisa, estudou a relação entre disfunções temporomandibulares e a organização do trabalho a partir do setor de serviço de teleoperações. Ele mostrou uma possível correlação entre o modelo organizacional prevalente nessa área e o desencadeamento ou agravamento das disfunções temporomandibulares – DTMs.

Essas doenças são “vinculadas às estruturas musculoesqueléticas da região orofacial, envolvendo ossos maxilares e temporais, mandíbula, musculatura mastigatória e articulações temporomandibulares”, cujos sintomas podem se manifestar em outras regiões do corpo. Os fatores psicossociais podem agravar as DTMs, mas há uma invisibilidade das possíveis relações com o trabalho, que ficam encobertas. “O trabalhador tem pouquíssima consciência de quanto as implicações da organização do trabalho podem agravar esta doença”, afirma Hopp.

Perícias médicas na Justiça do Trabalho
O advogado trabalhista Geancarlo Borges Caruso, por sua vez, apresentou a dissertação de mestrado “Doenças associadas ao asbesto e a prova pericial na Justiça do Trabalho”, defendida na Fundacentro em 2014. O objetivo da pesquisa foi avaliar a qualidade das perícias médicas sobre doenças relacionadas ao trabalho com asbestos, lavradas nas ações indenizatórias julgadas pela Justiça de Trabalho.

“Nós verificamos, de forma geral, uma baixa qualidade dos laudos pela ausência e falta concordância entre os quesitos abordados”, avalia Caruso. “Nos processos judiciais, os laudos são realizados de forma não padronizada e, por vezes, pouco clara, com conclusão simples sobre a existência ou não do nexo”, completa.

Exposição ocupacional em salinas
Outro mestrado defendido em 2014 no Programa de Pós-Graduação da Fundacentro foi apresentado pelo engenheiro de segurança e higienista ocupacional, Pedro Câncio Neto. Ele avaliou a exposição ocupacional à poeira de sal marinho no processo de beneficiamento em salinas no Rio Grande do Norte. Para tanto, visitou salinas em Mossoró, Grossos, Areia Branca e Porto do Mangue.

Quatro empresas foram selecionadas para o estudo. As medidas de controle utilizadas eram EPIs e ventilação. Uma das empresas tinha camada de sal agregada aos exaustores eólicos. Todas as possuíam uma grande quantidade de sal derramado no chão, que costumava ser varrido a seco, assim como havia poeira de sal em suspensão.

“A concentração de poeira na fração inalável, em três das quatro empresas avaliadas, é a mais predominante nos ambientes de trabalho”, explica Câncio Neto. “As partículas de sal que entram em suspensão nos ambientes avaliados (empresas A, B e D) têm diâmetro aerodinâmico menor que 100 µm [micrômetros] (fração inalável) e são capazes de entrar pelas narinas e pela boca, penetrando no trato respiratório dos trabalhadores durante a inalação”, conclui.

Caracterização de argamassas de barita como blindagens contra a radiação X
Por fim, o engenheiro e tecnologista da Fundacentro/MG, Airton Tavares de Almeida Junior, apresentou sua pesquisa de doutorado. O objetivo foi “caracterizar argamassas de barita, oriundas de diferentes regiões do Brasil, determinando os coeficientes de atenuação desses materiais, que são utilizados como barreiras protetoras contra a radiação X, de forma a assegurar a eficiência e a qualidade dos projetos de blindagem”.

As características de argamassas de barita brasileiras (roxa, branca e creme), segundo o tecnologista, “permitem determinar o cálculo das curvas de atenuação para diferentes energias utilizadas em proteção radiológica”. Ele recomenda que sejam elaborados programas de exploração mineral, já que a barita tende a se tornar um mineral raro e de alto valor. A pesquisa resultou em publicação em revista indexada e apresentações em congressos na Inglaterra, na Argentina, no México e nos estados do Paraná e Rio Grande do Sul.

Ruído de aeronaves de carga
No segundo bloco, o tecnologista da Fundacentro/RJ, Flavio Maldonado Bentes, apresentou sua tese de doutorado, que traz uma contribuição ao estudo de análise de sensibilidade do ruído de aeronaves de carga, utilizando recursos de simulação computacional e sistemas de informação geográfica. Um dos objetivos foi auxiliar na seleção de alternativas para a redução do ruído aeroportuário proveniente de aviões de grande porte.

“Há uma predominância de voos cargueiros noturnos e ocupação imprópria de áreas próximas dos aeroportos”, explica Bentes. “A exposição ao ruído aeroportuário traz consequências como desconforto, perda de inteligibilidade na comunicação, irritabilidade, perda na qualidade de vida de uma maneira geral, dentre outros fatores adversos”, aponta.

Sobrecarga térmica na cultura de cana-de-açúcar
O segundo bloco teve ainda a apresentação de quatro dissertações de mestrado defendidas na Fundacentro. Uma delas foi a pesquisa de Rodrigo Cauduro Roscani, engenheiro e tecnologista da instituição em Campinas. Ele avaliou quantitativamente o risco de sobrecarga térmica ao qual os trabalhadores da cultura de cana-de-açúcar do estado de São Paulo foram expostos durante o período de setembro de 2010 a agosto de 2014.

Para tanto, utilizou o software Sobrecarga Térmica, desenvolvido pela Fundacentro, que permite monitorar a exposição do trabalhador à sobrecarga térmica nas atividades a céu aberto pela estimativa do Índice de Bulbo Úmido-Termômetro de Globo (IBUTG), calculado utilizando-se dados meteorológicos do Instituto Nacional de Meteorologia – Inmet.

Os resultados foram apresentados por meio de mapas de frequência e mostram o percentual de dias em que o critério legal que utiliza o IBUTG, para atividade contínua, foi extrapolado em períodos de 1 a 8 horas. A situação mais crítica encontrada apresentou valor máximo para o IBUTG de 34,2°C, na qual o trabalho deveria ser impedido. Em 19,49% dos dias analisados, o limite de tolerância, IBUTG maior que 25°C , foi extrapolado em pelo menos 1 hora do turno.

“O trabalho do cortador de cana é pesado. O IBUTG deve ser observado para monitorar a exposição ao calor, mas na prática não faz esse monitoramento. Sabemos que a ferramenta do software é confiável e poderia ser utilizada para o monitoramento, que deve ser preventivo e constante”, avalia Roscani.

Implementação do PCMAT
O engenheiro e auditor fiscal do trabalho, Antonio Pereira do Nascimento, analisou a implementação do PCMAT no processo de construção de alvenaria estrutural em três obras de edificações residenciais de baixa renda em Osasco, Suzano e Mauá. Elas faziam parte do Programa Minha Casa Minha Vida. “São políticas para dar dignidade em moradia, mas são obras rápidas e acabam impactando nos trabalhadores da obra”, explica Nascimento.

As obras eram realizadas por três construtoras diferentes. Apenas uma tinha estrutura com técnico de segurança na obra e Sesmt da empresa estruturado. As outras duas, menores, contavam com a assessoria de um TST. Na pesquisa, o engenheiro avaliou se os fatores de riscos estavam previstos no PCMAT e se eram atendidos. Ele elaborou dois questionários. Um voltado para mestres, encarregados e gestores. O outro para os trabalhadores.

Para Nascimento, a concepção do empreendimento é muito importante, mas no Brasil só há preocupação com a obra. Ocorre uma terceirização dos riscos de projeto. “A construção civil é um dos quatro segmentos do Brasil que mais mata e adoece. Queda sempre foi uma grande preocupação, mais soterramento e choques elétricos. O segmento construção é o mais autuado pelo Ministério do Trabalho. A NR 18 junto com a NR7 são as mais autuadas”, contextualiza.

“É comum não colocarem bandeja e outros requisitos por dizerem que não haviam previsto no início das obras. Queda, choque elétrico e desabamento não são citados no PCMAT. O PCMAT tornou-se um documento que não bate com a eficácia que gostaríamos no canteiro de obra. A gente não está conseguindo chegar ao trabalhador. O PCMAT deveria ser feito de forma dinâmica, discutido por todos os envolvidos”, conclui o auditor.

Sílica em indústria de borracha
O professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Sudeste de Minas Gerais, Aluísio de Oliveira, apresentou pesquisa de mestrado em que avaliou a eficácia do sistema de ventilação local exaustora empregado para controle de sílica cristalina utilizada na produção de borracha de silicone.

Oliveira explica que, para cada situação, há um sistema de ventilação específico. Após dimensionamento e implantação, são necessários testes regulares. A velocidade de captura deve ser capaz de induzir o poluente para o seu interior. No estudo de caso, avaliou os parâmetros do sistema e realizou avaliação ambiental. O ponto de captura era muito distante, e a instalação dos filtros se dava no próprio recinto da fábrica.

“Presenciamos o rompimento de um filtro. A empresa iria instalar sistema de ventilação de acordo com as recomendações em nova unidade, pois aquela seria desativada”, relata. “A pesquisa mostrou que a origem das inconformidades do sistema de ventilação avaliado encontra-se na sua concepção. O sistema foi adaptado ao processo produtivo da empresa, quando o procedimento correto seria sua concepção em função das particularidades destes processos”, completa Aluísio de Oliveira.

Inspeção do trabalho na indústria mineral
A auditora fiscal do trabalho, Ana Costa da Fonseca, estudou a relação entre a inspeção do trabalho e a redução de agravos à saúde a partir da indústria mineral do Quadrilátero Ferrífel em Minas Gerais. Para tanto, ela cruzou as bases de dados do Ministério da Previdência e do Ministério do Trabalho.

“É um trabalho quantitativo, mas com reflexões relevantes. Na mineração, a maioria das fiscalizações não olha para os aspectos de segurança da NR 22, que estabelece padrões mínimos e mecanismos de controle para a mineração. São poucas autuações”, explica Fonseca. “O objetivo foi contribuir para a discussão do impacto da inspeção trabalhista na redução de acidentes de trabalho”, completa.

A pesquisadora constatou ainda a predominância de ações não punitivas e uma concentração territorial e setorial elevada na ocorrência de acidentes. Há evidências de que as ações fiscais tenham algum efeito direto e indireto.

Fonte: http://www.protecao.com.br